
Remco Evenepoel não esperou nem chegar à zona mista para soltar o que estava sentindo. Depois da primeira etapa de montanha do Tour de France 2026, nos Pireneus, o belga foi direto: pediu uma condução de Florian Lipowitz por um quilômetro e não recebeu. E lembrou, sem rodeios, que na Volta a Catalunha havia puxado o alemão por 30 quilômetros. A Red Bull-Bora Hansgrohe, que chegou a este Tour com a ambição explícita de ser uma superequipe, viu sua estreia de peso desandar antes mesmo do primeiro dia de descanso.
A resposta da equipe foi rápida e, para muita gente que acompanhou de fora, bastante transparente na sua intenção: um vídeo gravado no ônibus, postado no Instagram antes do início da sétima etapa, com Evenepoel e Lipowitz lado a lado garantindo que estava tudo bem. "Estamos bem. Você fala, e esquece", disse Evenepoel na gravação. Lipowitz concordou, os dois citaram suas classificações na etapa e o assunto, oficialmente, estava encerrado. Não estava, claro.
A raiz do problema: dois líderes, uma equipe, uma corrida só
A contratação de Evenepoel no inverno passado foi uma aposta enorme da Red Bull-Bora. O belga chegou com um contrato milionário e um histórico de campeão olímpico, mundial e vencedor de Vuelta, mas também com a memória recente de ter ficado em terceiro no Tour de France de 2024, ainda pela Soudal-Quick Step, atrás de Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard. Lipowitz, por sua vez, havia feito exatamente o mesmo resultado em 2025, também em terceiro, pela própria Red Bull. Dois atletas acostumados a ser a referência da equipe, agora dividindo espaço e decisões em tempo real, no meio de uma etapa de montanha, com Pogacar destruindo o pelotão à frente.
O CEO da equipe, Ralph Denk, tentou minimizar a situação no podcast oficial da Red Bull-Bora Hansgrohe na noite de quinta-feira, atribuindo o episódio a um desentendimento no calor do momento e a uma barreira de idioma. É uma explicação que não fecha completamente: Evenepoel foi específico, citou um episódio anterior de corrida e deixou claro que a frustração não era nova. O vídeo de reconciliação no dia seguinte, mais do que resolver, escancarou o quanto a equipe estava preocupada com a repercussão.
O que este episódio revela sobre o Tour de France 2026
Até aqui, a edição de 2026 vinha sendo descrita como tecnicamente boa, com corridas abertas nos primeiros dias e cenários bonitos, mas sem aquela tensão de bastidor que transforma o Tour em algo além de uma prova de ciclismo. A briga entre os dois co-líderes da equipe mais badalada da temporada preencheu exatamente esse espaço. Não é à toa que a cobertura internacional rapidamente comparou o momento ao clima que cercou a UAE Team Emirates no Tour de 2025, quando os bastidores do Giro d'Italia ainda pesavam sobre a equipe, ou às especulações sobre a saída de Evenepoel da própria Soudal-Quick Step naquela mesma época.
A diferença agora é que Evenepoel é a Red Bull-Bora. Ele é o investimento central, a aposta de imagem, o nome que deveria unificar a equipe em torno de um objetivo. Quando ele aponta o dedo para um companheiro de equipe em coletiva, a narrativa de superequipe coesa desmorona, pelo menos por alguns dias. O vídeo gravado às pressas tenta remontar essa narrativa, mas quem já viu o tipo de conteúdo que equipes produzem quando precisam apagar incêndio reconhece o formato.
O que vem pela frente para Evenepoel e Lipowitz
Os Alpes ainda estão por vir, e é lá que a hierarquia entre os dois vai precisar ser definida de forma mais clara do que foi nos Pireneus. Evenepoel terminou a etapa em quarto, Lipowitz em sexto, ambos no grupo dos favoritos ao pódio, o que tecnicamente é um bom resultado para a equipe. Mas em uma corrida onde Pogacar continua sendo o favorito absoluto, qualquer brecha interna entre os perseguidores tem peso dobrado: cada joule gasto em desentendimento é um joule a menos para tentar acompanhar o esloveno quando ele acelerar de verdade.
A Red Bull-Bora vai precisar decidir, em algum momento das próximas semanas, se os dois seguem como co-líderes de fato ou se um deles assume a função de apoio. Esse tipo de decisão raramente é limpa, especialmente quando os dois têm contratos e egos compatíveis. Por enquanto, o vídeo no ônibus diz que está tudo bem. A corrida vai dizer outra coisa.
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