Guia técnico

Ciclocomputador: como ler a ficha antes de escolher

Eu testo ciclocomputador desde 2018, do Garmin Edge 520 Plus ao iGS800, passando por Bryton, Lezyne, Atrio e Absolute. A ficha de qualquer um deles tem umas 40 linhas, e a maioria não decide nada. Este guia é o jeito que eu uso para ler essas 40 linhas em cinco perguntas, na mesma ordem, aparelho após aparelho. É o mesmo padrão dos reviews e do comparador do site.

Cinco eixos, sempre na mesma ordem

A Garmin há anos organiza a ficha dos Edge em blocos (navegação, treino e análise, segurança, desempenho), e acho a ideia certa: em vez de uma lista plana de funções, a ficha responde a perguntas. Eu peguei essa lógica e fechei em cinco eixos, que servem para qualquer marca, do aparelho de entrada ao topo de linha.

24,8km/h148bpm212W86rpm6,2%subida1 · Básicotela, bateria, GNSS, peso2 · Navegaçãomapa, rota, subida3 · Treino e desempenhosensores, treino, métricas4 · Segurançaradar, queda, rastreio5 · Conexãoapp, ANT+, BLE, Wi-Fi
O padrão de análise: toda ficha de ciclocomputador é lida nestes cinco eixos, sempre na mesma ordem. É assim que os reviews e o comparador do site organizam cada aparelho.

A ordem não é enfeite. O eixo 1 é o que você sente em todo pedal, mesmo que nunca abra um mapa. Os eixos 2, 3 e 4 são funções que você liga ou não, e cada perfil de ciclista pesa um deles. O eixo 5 é o que decide se o aparelho vai continuar útil daqui a três anos. Vamos a cada um.

1. Básico: tela, bateria, GNSS e peso

Tela

Tamanho de tela é a primeira linha da ficha e a mais mal lida. O número é a diagonal, em polegadas, e a área cresce mais rápido do que ele: de 2,4 para 3,5 polegadas a diagonal sobe 46%, mas a área de tela mais que dobra. Na prática isso vira quantos campos você lê de relance, em movimento, sem tirar o olho da trilha por mais de meio segundo.

2,4"BSC300T2,6"Edge 540 / 8403,0"BiNavi Air3,3"BSC5003,5"iGS800 / Edge 1050
As diagonais que existem hoje, desenhadas na mesma escala. De 2,4 para 3,5 polegadas a área de tela mais que dobra, e é isso que decide quantos campos você lê sem apertar os olhos.

Depois do tamanho, três coisas: se é colorida (hoje quase todas são, e o mapa precisa de cor), se tem toque ou só botão, e se dá para ler no sol. Toque é mais rápido para mexer no mapa e muito pior com luva molhada ou na chuva. Os aparelhos que têm as duas coisas, como o Edge 850, resolvem o dilema; nos que são só toque, vale testar com luva antes. Leitura ao sol quase nunca está na ficha, e é onde os reviews pagam a conta.

Bateria

A hora de bateria da ficha é medida no modo mais econômico do aparelho: GPS de uma banda, sem mapa na tela, sem sensores, brilho no automático. É um número comparável entre modelos, desde que você saiba que ninguém pedala nesse modo.

Horas declaradasGPS de uma banda, sem mapa, tela no automáticoMesmo aparelho, mapa e rota ligadosa tela redesenha o tempo todoMapa, duas bandas, radar e brilho no máximoo cenário de uma prova longa de sol a pinohoras de pedal
As barras são proporções ilustrativas, não medidas de um modelo. O que importa: a bateria da ficha é a do modo mais econômico, e cada função que você liga come um pedaço. Compare aparelhos pela hora declarada no mesmo modo, e desconte.

O que eu faço: comparo as horas declaradas entre aparelhos e desconto um terço para o meu uso, que é mapa ligado e radar pareado. A linha nova da iGPSPORT deixa a conversa clara: o iGS800 declara 50 horas com uma bateria grande, o BiNavi Air declara 30 com 77 gramas de aparelho. Nenhum dos dois está errado, são escolhas diferentes, e a ficha deixa você escolher. Repare também no conector: USB-C usa o cabo do celular e carrega rápido (no BiNavi Air, uma hora e meia para a carga completa), enquanto o micro-USB antigo ainda aparece em aparelho de entrada.

GNSS

GPS é o sistema americano. GNSS é o nome do conjunto: GPS, GLONASS (russo), Galileo (europeu) e BeiDou (chinês). Todo aparelho atual fala com vários deles ao mesmo tempo, então essa linha da ficha não separa mais ninguém. O que separa é a quantidade de bandas.

UMA BANDA (L1)satéliteeco aceito: posição saltaDUAS BANDAS (L1 + L5)satéliteeco descartado: posição firme
À esquerda, o sinal de uma banda só: rebate no prédio e na copa das árvores e o aparelho aceita o eco como se fosse o satélite. À direita, com duas frequências (L1 e L5), o receptor reconhece o reflexo e descarta. É a diferença entre a trilha desenhada em cima da trilha e a trilha desenhada no meio do mato.

Um receptor de uma banda escuta só a frequência L1. Na estrada aberta, funciona. Em mata fechada, cânion ou entre prédios, o sinal rebate antes de chegar e o aparelho aceita o eco como posição: é a trilha desenhada no meio do mato, o Strava contando 200 metros a mais em cada volta. Com duas bandas (L1 e L5), o receptor identifica o reflexo e descarta. Para quem pedala MTB em mata fechada, esse é o item do eixo 1 que mais vale pagar. A ficha chama isso de “dual-band”, “multi-band” ou “L1+L5”.

Duas bandas gasta mais bateria que uma. Todo aparelho com duas bandas deixa escolher o modo, e é aí que a hora declarada muda. Se a ficha diz “até 30 horas” e o aparelho tem duas bandas, o “até” quase sempre é com uma.

Peso e tamanho

Peso importa menos do que parece (tudo entre 60 e 130 gramas) e mais para quem compete em speed do que para o resto. O que importa é a relação: o BiNavi Air entrega tela de 3 polegadas em 77 gramas e 13,8 mm de espessura, o que dois anos atrás não existia. Memória em gigabytes só interessa se o aparelho carrega mapa (eixo 2); sem mapa, qualquer memória sobra.

2. Navegação: mapa, rota e subida

Aqui a ficha separa três degraus que o marketing costuma juntar sob a palavra “navegação”.

O primeiro é a linha de percurso (breadcrumb): você importa um arquivo GPX e o aparelho desenha a linha numa tela sem mapa embaixo. Serve para não se perder num percurso conhecido, e é o que aparelhos de entrada como o iGS10S ou o IGS320 fazem. Eu ensinei o processo no vídeo sobre percurso no Garmin, e o princípio é o mesmo em qualquer marca.

O segundo é o mapa embarcado: a linha em cima de ruas e trilhas de verdade, com nome de rua. Mapa embarcado pede memória, processador e uma tela que valha a pena. Há alguns anos isso era coisa de Edge 1030; hoje o BSC300T da iGPSPORT tem mapa e custa uma fração. Pergunte de onde vem o mapa (OpenStreetMap na maioria, Garmin Cycle Map nos Edge), se ele é gratuito e se atualiza pelo app ou pelo computador. Nos Garmin, dá para instalar mapas de graça, e esse continua sendo o vídeo mais assistido do canal.

O terceiro é o roteamento: o aparelho calcula o caminho até um ponto, avisa a virada e recalcula quando você erra. É o degrau que separa “tem mapa” de “navega”. A ficha diz “turn-by-turn” e “re-routing”; sem os dois, o mapa é só pano de fundo.

O recurso de subida merece linha própria: ClimbPro nos Garmin, iClimb nos iGPSPORT, Climber nos Wahoo. Ele mostra o perfil da subida que está por vir, quanto falta e a inclinação de cada trecho. Quem faz prova de fundo ou gran fondo usa isso mais do que o mapa. Verifique se funciona só com rota carregada ou também em pedal livre; muda de modelo para modelo.

3. Treino e desempenho: sensores, treino e métricas

O ciclocomputador é a tela que junta o que os sensores medem. Então o eixo 3 começa pela pergunta “com quais sensores ele fala?”: cinta ou braçadeira de frequência cardíaca, sensor de cadência e velocidade, medidor de potência (pedal, pedivela ou cubo). Todos os aparelhos atuais aceitam os três por ANT+ e Bluetooth, mas o de entrada às vezes limita o número de sensores pareados ao mesmo tempo.

O segundo degrau é o treino estruturado: o aparelho recebe um treino (aquecimento, blocos, descanso) do TrainingPeaks, do app da marca ou do Strava e te guia bloco a bloco na tela. Quem treina com planilha não vive sem isso, e quem não treina nunca vai abrir. Os vídeos de treino de MTB no Garmin e de cadência na tela de treino mostram como fica na prática; o IGS620 foi o primeiro iGPSPORT que testei com esse recurso.

O terceiro degrau são as métricas de desempenho: VO2 máximo estimado, carga de treino, tempo de recuperação, FTP, e no MTB as métricas de trilha (Grit e Flow nos Garmin). Elas exigem potência ou frequência cardíaca para fazer sentido, e o cálculo é uma estimativa proprietária: o número de uma marca não se compara ao da outra. Aqui a ficha vale menos que o ecossistema do eixo 5.

Dois itens fecham o eixo: segmentos ao vivo do Strava, que te mostram em tempo real quanto você está do seu recorde no trecho (o iGS630S trouxe isso para a faixa de preço da iGPSPORT), e a integração com e-bike, que mostra bateria e modo de assistência na tela do ciclocomputador. Se você tem e-bike, olhe essa linha: eu mostrei no canal como conectar o Garmin no Shimano Steps, e a diferença no dia a dia é grande.

4. Segurança: radar, queda e rastreio

É o eixo que mais mudou nos últimos cinco anos e o que menos gente olha na hora de comprar. Quatro itens.

O radar traseiro avisa na tela do ciclocomputador que vem carro atrás, a que distância e a que velocidade. O Garmin Varia criou a categoria, e hoje a iGPSPORT tem radar próprio; o ponto da ficha é se o aparelho aceita radar, de que marca, e se mostra o aviso na tela de dados ou só no mapa. Eu uso desde 2021 e escrevi sobre o Varia RTL515: é o acessório que mais mudou meu pedal de estrada.

A detecção de incidente percebe a queda pelo acelerômetro e manda mensagem com a sua localização para um contato, via celular pareado. O rastreamento ao vivo (LiveTrack nos Garmin) deixa alguém acompanhar você em tempo real. O alarme apita e avisa o celular se a bike for movida enquanto você toma um café.

Tudo isso depende do celular no bolso, com o app aberto e sinal de dados. Na ficha vem como função do ciclocomputador; na trilha, sem sinal, nenhuma delas funciona. Entra na conta, mas não substitui avisar alguém aonde você vai.

5. Conexão: app, ANT+, Bluetooth e Wi-Fi

O quinto eixo é o que determina se o aparelho envelhece bem. Três linhas da ficha.

Rádios. ANT+ é o protocolo dos sensores de ciclismo, Bluetooth fala com sensores e com o celular, Wi-Fi sobe o pedal sozinho quando você chega em casa. Todo aparelho atual tem os dois primeiros; Wi-Fi ainda separa faixa de preço. Sem Wi-Fi, o pedal sobe pelo celular, o que é só um passo a mais.

App e plataformas. Garmin Connect, iGPSPORT App, Wahoo, Bryton Active: é onde você vê o histórico, configura as telas e recebe atualização. O que importa é a ponte com o que você já usa: Strava, TrainingPeaks, Komoot. Todos os grandes falam com o Strava; TrainingPeaks e Komoot separam. Olhe também se alguma função é assinatura: hoje a maioria não cobra, mas o cenário está mudando.

Atualização. Um aparelho de 2020 que ainda recebe firmware vale mais que um de 2023 abandonado. A ficha não diz, mas o histórico da marca diz: o Edge 530 de 2019 continuou ganhando função por anos. Quando a Garmin Connect saiu do ar em 2020, aliás, a pergunta que mais recebi foi como salvar o pedal, e a resposta continua valendo: o arquivo fica no aparelho, o app é só o mensageiro.

Por onde começar, dependendo de você

Os cinco eixos têm peso diferente para cada perfil. Quem está comprando o primeiro ciclocomputador e quer sair do celular precisa do eixo 1 e de uma linha de percurso: aparelho de entrada resolve, e a briga é entre tela e bateria. Quem viaja de bike ou faz cicloturismo vive no eixo 2, e mapa com roteamento é obrigatório. Quem treina com planilha mora no eixo 3, e treino estruturado com potência decide. Quem pedala na estrada, especialmente rodovia, deveria começar pelo eixo 4, com um aparelho que aceite radar, antes de pensar em qualquer outra função.

Dois guias antigos do canal continuam valendo como ponto de partida: como escolher um GPS de bicicleta e qual o melhor para o seu perfil. Os modelos mudaram; o raciocínio, não.

O que dá pra deixar de lado

Linhas da ficha que ocupam espaço e não decidem nada:

  • o número de sistemas de satélite (todos falam com quatro ou cinco), o que vale é a quantidade de bandas;
  • memória em gigabytes sem saber se o aparelho carrega mapa;
  • “mais de 100 campos de dados”: você vai usar oito;
  • “à prova d’água” sem o índice IPX (IPX7 é o padrão que aguenta chuva de verdade);
  • peso, fora da competição de estrada;
  • e o número da versão do Bluetooth, que não muda nada no pareamento de sensor.

Bora botar em prática?

O comparador lê a ficha oficial de 26 aparelhos nestes mesmos cinco eixos. Coloca até três lado a lado.

Comparar ciclocomputadores

De onde veio essa conversa

Além dos aparelhos que passaram pela minha bike, estas fontes ajudaram a fechar o padrão: