
A Red Bull-Bora-Hansgrohe chegou ao Tour de France 2026 com um projeto que poucos times já tentaram no ciclismo moderno: dois corredores protegidos, dois líderes de GC, e a estrada decidindo qual deles emerge. A ideia soava bem nas entrevistas de pré-corrida, onde Remco Evenepoel e Florian Lipowitz sentaram lado a lado e garantiram que o plano era sólido. Uma semana depois, na chegada da etapa 6, nos Pireneus, o verniz começou a rachar.
A etapa incluía o Col du Tourmalet e uma longa descida até a linha de chegada. Pogačar atacou no alto e foi embora sozinho. Lipowitz desceu melhor que Evenepoel no Tourmalet e chegou à frente, mas o belga, que perdeu terreno na subida, usou sua habilidade nas descidas para fechar o grupo. Quando o pelotão de perseguição se formou, com Vingegaard ainda solto na frente, Evenepoel pediu que Lipowitz puxasse para tentar alcançar o dinamarquês. O companheiro de equipe não colaborou. Evenepoel terminou em quarto, a 2min57s de Pogačar, e foi direto para a zona mista deixar o que pensava bem claro.
"Eu pedi um lead-out e não recebi", disse Evenepoel à imprensa belga, pela Sporza. "Na Volta a Catalunya eu rodei 30 quilômetros na frente por ele. Pedi um quilômetro de trabalho e ele não fez. Isso me deixou com raiva e terá de ser discutido hoje à noite." A declaração foi pública, direta e sem filtro, o tipo de coisa que times de alto nível normalmente resolvem antes de chegar ao microfone.
O contexto deixa a situação ainda mais delicada. Evenepoel chegou ao Tour depois de mais de dois meses sem correr, em preparação de altitude, tendo perdido 4 kg antes da largada. Há uma pressão real sobre ele para mostrar que ainda é candidato ao pódio, e qualquer percepção de que o time priorizou Lipowitz num momento decisivo alimenta a narrativa de que o experimento dos dois líderes pode não funcionar quando o terreno fica sério. A própria estrutura da equipe, pensada para ser flexível, vira um problema quando os dois precisam de apoio ao mesmo tempo.
A Red Bull respondeu no dia seguinte, com o chefe de equipe Ralph Denk tentando minimizar o episódio. Denk disse que a situação "estava sendo exagerada" e que os dois corredores chegaram a jantar juntos na noite do incidente, como forma de ilustrar que o clima interno não era de ruptura. A equipe não apresentou uma versão detalhada do que aconteceu taticamente naquele grupo de perseguição, e Lipowitz não se pronunciou publicamente sobre a cobrança do companheiro.
O que fica claro é que a estratégia do "a estrada decide" tem um custo emocional que a equipe parece ter subestimado. Quando Pogačar ataca e o grupo de trás precisa cooperar, a pergunta de quem lidera e quem puxa não pode ser respondida com um encolher de ombros. Evenepoel ainda está em quarto no geral e, pelas suas próprias palavras, acredita que o Tour não acabou para ele. Mas o episódio mostrou que a convivência de dois líderes numa mesma equipe exige mais do que uma coletiva de imprensa harmoniosa antes da largada.
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