Guia técnico, parte 2 de 4

De cabeça para baixo, trunnion ou yoke: o que segura o amortecedor

Na parte 1 a gente viu que a posição do amortecedor é uma decisão de embalagem e pouco altera a cinemática. Só que embalagem tem duas perguntas escondidas: o amortecedor pode ficar com a câmara de ar para baixo, e como ele está preso ao quadro. A primeira quase não importa, e os manuais explicam por quê. A segunda importa muito, e a Fox publica o limite em número.

De cabeça para baixo: câmara de ar em cima ou embaixo?

Aqui a gente foi direto aos manuais, e o resultado surpreende: nenhum deles proíbe nem autoriza inverter o amortecedor. A Fox admite, numa página de suporte, que seus amortecedores são montados nas mais variadas posições por causa da quantidade de projetos de suspensão. O manual dos coil da Fox só exige que nenhuma parte do amortecedor nem da mola toque o quadro ao longo do curso. A Öhlins manda montar conforme o manual da bicicleta. A DVO, idem. A RockShox ensina o truque do papel entre amortecedor e quadro para conferir folga. As únicas regras de posição que existem são sobre a válvula: a Fox lista posições proibidas da válvula do X2 em relação ao reservatório, a EXT pede que as válvulas fiquem fora do alinhamento do copo do reservatório, e a Cane Creek resolve de outro jeito, com uma câmara de ar que gira à mão para alinhar a válvula.

A física explica a indiferença. O amortecedor tem gás e óleo separados por um pistão flutuante ou uma membrana, então o damper funciona igual em qualquer orientação. O argumento que circula em fórum, de que a câmara para baixo deixa o lubrificante escorrer para longe da vedação, esbarra num detalhe do procedimento de serviço da Fox: a câmara de ar recebe 2 cc de Float Fluid. Não há o que escorrer.

Então por que um quadro inverte o amortecedor? Pelos mesmos motivos de sempre: folga entre a válvula e o rocker, acesso aos botões, e o quanto de massa fica presa à parte que se move. A Bike Perfect descreve na Spark 910 que o amortecedor é invertido com a cabeça trunnion para baixo, para dar acesso à válvula e ao rebound pela porta inferior. A Bikerumor anota que a Scott inverte para que o peso não suspenso do amortecedor fique mais baixo. A Norco Optic também roda de ponta-cabeça, e a Bike Perfect explica que foi para o reservatório não bater no down tube em compressão. A Ghost Lector FS leva o amortecedor em pé à frente do seat tube e invertido. O que se perde, e o Pinkbike mostrou na Spark de 2022, é a leitura do anel de sag: invertido e escondido, ele some, e a marca precisa desenhar indicadores no quadro.

O amortecedor não liga para a orientação. Quem liga é o quadro, por folga e acesso, e você, na hora de ler o sag. A gente procurou teste de bancada comparando câmara para cima e para baixo em temperatura ou durabilidade e não encontrou nenhum. O único cuidado que vale nos dois casos é o da Öhlins: nunca jogar jato de pressão na junção entre a vedação e o corpo.

Yoke, trunnion e olhal: o que segura o amortecedor

quadroyoke rígidopivô do linkforça fora do eixo(quadro torce, rodadesalinha)comprimento do strut (Fox limita por curso)
Com olhal nas duas pontas o amortecedor só recebe força ao longo do próprio eixo. Preso a um yoke rígido, qualquer desalinhamento do quadro vira flexão na haste. A Fox mediu até 50% de carga assimétrica em campo e publica um comprimento máximo de strut por curso: 118 mm para amortecedores de 40 a 45 mm de curso, 37 mm para os de 70 a 75 mm.

Se a posição do amortecedor pouco altera a cinemática, o jeito de prendê-lo altera muito a vida dele. Na rodada do Pinkbike com os fabricantes, Andrew De Tablan, da Fox, explicou que, assim que um yoke ou uma extensão é preso rigidamente ao amortecedor, ele deixa de ser uma peça que só recebe força ao longo do eixo, e que a Fox já mediu, com extensômetros em campo, até 50% de carga assimétrica. A recomendação: se o yoke for inevitável, que seja curto, rígido e simétrico. E a haste fina de um coil sofre mais que os dois tubos grossos de um amortecedor a ar.

A Fox publica o limite em número. A tabela de strut mount define o comprimento do strut como a distância entre o eixo do pivô e o eixo da fixação do amortecedor, e limita por curso:

Curso do amortecedorStrut máximo, olhal padrãoStrut máximo, trunnion
40 a 45 mm118 mm76 mm
50 a 55 mm98 mm56 mm
60 a 65 mm72 mm36 mm
70 a 75 mm37 mm16 mm

Na mesma página, a Fox lista quadros em que não recomenda seus coil por causa do yoke: Specialized Kenevo, Levo, Levo SL e Stumpjumper Evo dos anos-modelo 2020 a 2023, Canyon Spectral e Torque, Commencal Meta V4 e V5, entre outros. É por isso que existe um mercado de yokes de reposição para trocar o amortecedor proprietário da Specialized por um de medida padrão, e é por isso que a Stumpjumper 15 passou a acionar o amortecedor por um link de extensão sobre rolamentos.

RockShox Super Deluxe com olhal padrão nas duas pontasOlhal padrão

RockShox Super Deluxe 210x55: olhal com bucha nas duas pontas. O amortecedor pode se acomodar a um pequeno desalinhamento

RockShox Super Deluxe em versão trunnion, com o topo do corpo plano e furos lateraisTrunnion

RockShox Super Deluxe 205x60 trunnion: o topo é plano e os parafusos entram pelos lados do corpo, em rolamentos do link. Mesmo curso, 25 mm mais curto

Os dois jeitos de prender a ponta de cima, nas fotos de produto da RockShox. O olhal padrão tem bucha e tolera desalinhamento. O trunnion prende o corpo pelos lados em rolamentos do link, encurta o amortecedor em 25 mm e é muito mais rígido, o que empurra para o amortecedor a carga lateral quando o quadro flexiona.

O trunnion nasceu para o amortecedor em pé. Quando a RockShox apresentou o padrão métrico, em abril de 2016, a Bikerumor explicou que o olhal superior de um amortecedor vertical gira de 70 a 120 graus, demais para uma bucha, daí os rolamentos no link, e que o trunnion encurta o amortecedor em 25 mm, o que deixa caber em pé nos quadros pequenos. Resolve um problema e cria o seu. A Vorsprung calcula que os 54 mm de largura da fixação trunnion são cerca de 75 vezes mais rígidos que um olhal convencional de meia polegada, e é aí que mora o custo: rigidez demais empurra para o amortecedor a carga lateral quando o quadro flexiona. Buchas DU aceitam um pouco de desalinhamento ao longo do curso; rolamentos, não. Chris Porter diz na rodada do Pinkbike que trunnion não é boa ideia em bicicleta e existe por embalagem. Weagle é mais generoso: a má fama veio de tolerâncias frouxas e projeto ruim de algumas marcas no começo. A Öhlins dá a dimensão: já viu casos em que 30% da rigidez do quadro passava pelo amortecedor. A síntese da Vorsprung, na mesma matéria, é a mais útil: olhal convencional nas duas pontas, sempre que a embalagem permitir. Não por acaso, o Pinkbike comemorou ver a Transition Smuggler com olhal padrão e um rocker mais robusto, e a Trek manteve o olhal inferior na Fuel EX de 2026.

Olhe como o amortecedor está preso, não só onde. Yoke longo e trunnion carregam o amortecedor com força que ele não foi feito para receber. Olhal nas duas pontas e link curto sobre rolamento é o que os fabricantes de amortecedor pedem.

Falta o terceiro furo que as fotos escondem. Na parte 3, a junção entre chainstay e seatstay: é o pivô traseiro que decide o que o freio faz com a suspensão.

De onde veio essa conversa

Tudo que está aqui foi conferido na fonte. Vale a leitura direta: