Guia técnico, parte 3 de 4

O pivô traseiro: quatro lugares para o mesmo furo

Depois da posição do amortecedor, a junção entre chainstay e seatstay é o outro lugar em que as fotos enganam. O pivô traseiro de um four-bar pode ficar em quatro posições, e cada uma muda o que o freio faz com a suspensão. Esta parte é sobre esse furo: onde ele fica, o que cada lugar custa e economiza, e as patentes que explicam quem usa o quê. A tabela das arquiteturas, com os nomes que cada marca dá, já está no guia de cinemática; aqui a gente não repete.

Onde o furo pode ficar

disco de freioBBchainstayseatstay12341. Horst linkno chainstay, antes do eixo2. Faux barno seatstay, acima do eixo3. Concêntricono eixo (ABP, Split Pivot)4. Flex staysem pivô, o tubo dobra
O freio mora na roda. Se a pinça está presa numa peça que gira junto com o balanço (single pivot, faux bar, flex no seatstay), a frenagem mexe na suspensão. Se está numa peça que gira em torno de outro ponto (Horst, concêntrico, flex no chainstay), o projetista consegue separar as duas coisas.

A BikeRadar define o Horst link como um pivô abaixo e à frente do eixo, no chainstay, e é ele que reduz o efeito da frenagem sobre a suspensão. Se o pivô sobe para o seatstay, acima do eixo, o freio continua preso ao balanço que gira no pivô principal: é o faux bar, um single pivot com link, e a frenagem interfere. Se o pivô é concêntrico ao eixo, caso do ABP da Trek e do Split Pivot de Weagle, a pinça gira com o seatstay, que gira menos que o chainstay, e o anti-rise cai bastante. Se não há pivô nenhum, o tubo flexiona, e aí importa onde.

Flex stay não é uma coisa só. Quem explica é o autor que assina R-M-R no Pinkbike: flex concentrado no seatstay equivale a um single pivot; flex concentrado no chainstay equivale a um four-bar. A Cannondale faz o segundo, e diz na página do FlexPivot que a flexão acontece num ponto preciso do chainstay, imitando um Horst link de verdade. Specialized Epic, Scott Spark, Orbea Oiz, Canyon Lux e Yeti ASR fazem o primeiro. Mesma palavra, comportamentos opostos no freio.

Detalhe do dropout traseiro da Santa Cruz Tallboy 6, com o pivô Horst no chainstay destacado1. Horst link

Santa Cruz Tallboy 6: o pivô fica no chainstay, à frente e abaixo do eixo; o seatstay chega até ele

Detalhe do dropout traseiro da Kona Process 153, com o pivô no seatstay acima do eixo destacado2. Faux bar

Kona Process 153: o chainstay vai inteiro até o eixo e o pivô fica no seatstay, acima dele

Detalhe do dropout traseiro da Trek Fuel EX, com o pivô concêntrico ao eixo destacado3. Concêntrico

Trek Fuel EX (ABP): chainstay e seatstay giram em torno do próprio eixo da roda

Detalhe do dropout traseiro da Sense Invictus Evo G2, com o seatstay sem pivô destacado4. Flex stay

Sense Invictus Evo G2: nenhum pivô; o seatstay é uma peça só até o dropout e dobra o que precisa

As quatro posições no dropout de bikes reais, vistas pelo lado da transmissão. A numeração é a mesma do desenho acima. Fotos de catálogo recortadas na região do eixo traseiro.

O que o freio faz com cada um

Os números publicados sobre o efeito no freio vêm do Behind the Numbers do Pinkbike, que comparou cinco trail bikes: a Norco Sight, four-bar Horst, fica perto de 55% de anti-rise, a Commencal Meta TR, single pivot com link, passa de 100% por boa parte do curso, e o conjunto vai de 110% a 55%. O que cada número significa está no guia de cinemática; aqui o ponto é que a posição desse pivô é o que separa os dois extremos.

O que se ganha tirando o pivô

Peso e manutenção, e as marcas publicam a conta. A Salsa diz que o flex stay economiza 48 g de rolamento e ferragem em relação ao Split Pivot, ao custo de perder o ajuste fino da frenagem. A BikeRadar registra que a Specialized tirou o pivô do chainstay do Epic 8 para cortar peso e manutenção, com 76 g a menos no quadro S-Works. A Cannondale estima a penalidade de um four-bar convencional em cerca de 200 g e escreve que nunca conseguiu fazer um FlexPivot falhar em teste de fadiga: pedivelas quebravam antes. A Yeti lembra que faz flex stay desde 2003. Limite de curso oficial ninguém publica; o maior que a gente encontrou com flex stay foi 125 mm, na Canyon Lux Trail de 2026.

As patentes, e por que elas explicam quem usa o quê

A do Horst link é a US 5.509.679, de Horst Leitner, concedida em 1996 e depois cedida à Specialized, que a usou como base de todas as suas full por quase duas décadas até ela expirar. A do Split Pivot é a US 7.717.212, de Weagle, concedida em 2010; a do ABP é a US 7.837.213, da Trek, do mesmo ano, mas o ABP já estava no mercado desde maio de 2007. Weagle processou a Trek em setembro de 2012, alegando que tinha mostrado fotos do projeto à Trek em 2007 e a Trek pediu patente um mês depois; a Trek respondeu que desenvolveu tudo de forma independente. Em dezembro de 2013 o juiz William Conley decidiu por não infração, apoiado nas diferenças entre as curvas de alavancagem, e o tribunal de apelação confirmou em dezembro de 2014, sem opinião escrita. O argumento de Weagle para o pivô concêntrico continua sendo o melhor resumo do que ele faz: posso escolher um pivô que seria horrível para frear mas ótimo para acelerar, e não preciso me preocupar com a frenagem.

Flex stay pede a pergunta “flex onde?”. No seatstay é single pivot, no chainstay é Horst. E, seja qual for, o pivô traseiro é o que decide o que o freio faz com a suspensão.

Com os três furos explicados, dá para olhar as bikes. Na parte 4, o mapa modelo por modelo, as marcas brasileiras e a lista de como olhar para uma full sem se enganar.

De onde veio essa conversa

Tudo que está aqui foi conferido na fonte. Vale a leitura direta: